Era como se todos usassem roupas pretas. Ou meus olhos só conseguiam enxergar essa cor. O ônibus estava vindo. Mas não deveria ser verde? Entrei. Assim que coloquei o pé esquerdo no primeiro degrau do ônibus, uma borboleta entrou comigo. Suas asas eram pretas, como o rosto das pessoas que me encaravam por estar "admirando" a borboleta. Engraçado mas havia um colorido em suas asas que eu não conseguia explicar. Só olhava. (Com licença) Disse uma voz preta ao passar por mim. Só então me dei conta de que eu atravancava o caminho. (Se você tocar nela e esfregar os olhos, fica cego) Disse uma senhora que levava consigo uma bolsa preta. Sorri de leve para ela. Mentira. Só pensei em sorrir. Não poderia esboçar o mínimo de simpatia àqueles rostos que me fitavam. Um dos rostos que estava sentado no último banco levantou e começou a caminhar em minha direção. Confesso que fiquei com um pouco de medo até perceber que não era em minha direção que ele caminhava e sim da borboleta. Se aproximou o máximo que pôde, passou o dedo em suas asas e depois esfregou nos olhos. Gritei. Saí correndo. Cambaleando. Gritei outra vez e. Tarde demais. Seus olhos lacrimejavam e a essa altura, os meus também.
Terça-feira, Junho 12, 2007
Terceiro dia
Bolo ou mousse? Bolo. Antes de dar a primeira mordida, um pensamento cortou meu cérebro como a lâmina da faca cortou a fatia de bolo. "Descuidei dele, quase larguei, quis deixar cair, mas não deixei, peguei no ar". Respirei. Não estava com fome. Me assustei com um latido agudo que vinha de trás. Provavelmente um Pincher. Não olhei. Vários pássaros voaram, deram a volta em uma torre e voltaram para o mesmo lugar. O bolo ainda estava inteiro quando escorreguei em uma bosta de cachorro. Provavelmente do Pincher. Não olhei. Uma leve inclinada de cabeça para a esquerda e lá estava o bolo, caído na calçada. Em menos de dois minutos os passarinhos comeram tudo.
Sábado, Junho 09, 2007
Segundo dia
Sonhei que eu caminhava por uma estrada com muitas pedras, nem estreita, nem larga, mas não sabia como eu cabia nela. Não sentia minhas pernas, mas o som das pisadas era seco e forte e só o que se ouvia. Uma névoa ensaiava um leve cair. Depois do qüinquagésimo quinto passo avistei o que parecia ser uma pessoa. Caminhei mais rápido. Não corri. No octagésimo quarto passo, depois do qüinquagésimo quinto, reparei que não era uma pessoa e sim um monte de pedra, iguais as que eu pisava e que a estrada não continuava. Havia um buraco. Caído no chão havia um espelho. Ao levantar o espelho e virá-lo na minha direção, vi que eu era uma pá. Furada.
Sexta-feira, Junho 08, 2007
Primeiro dia
Os olhos custaram a abrir. Calcei os meus sapatos, caminhei, cambaleei, quase caí. Não caí. Lavei as minhas roupas, fiz carinho no cachorro. O dia parecia estar parado. Um dia parado. Poderia ter parado há exatos onze meses. Chorei. Percebi uma remela no olho esquerdo. Tirei a remela de frente para o espelho. Só assim pude perceber o quão grandes estavam as minhas olheiras. Lavei o rosto. A sensação da remela raspando no olho esquerdo me acompanhou durante todo o dia parado.
Terça-feira, Maio 15, 2007
Segunda-feira, Maio 15, 2006
o "beco" filosófico
As vezes você se encontra num beco sem saída. Quer pular e não consegue, quer gritar e não tem voz, quem bater e não tem forças. Só resta esperar, sentado talvez, ou em pé mesmo, porque pode não demorar tanto assim. Mas se demorar é melhor sentar e ficar queieto, sem fazer esforço. Brigar, pra quê? Com quem? Só se for com você mesmo, ou seu duplo, mas aí já entramos em outra conversa e mais uma vez digo que é melhor ficar quieto. Tente contar as ranhuras na parede, as núvens que passam, se der pra ver o céu, é claro! Se passar algum inseto, observe o comportamento dele, perceba se tem algo de semelhante ao seu ou de alguém que você conhece. Ria das coincidências que encontrar, ou chore. Quando começar a ficar nervoso, roa as unhas. Elas vão ficar horríveis, mas cigarro você não vai encontrar em nenhum dos bolsos da calça. Quando ficar sem unhas, provavelmente seu rosto já vai apresentar alguns sinais de cansaço, mesmo estando parado a maior parte do tempo. Se entre tudo isso, você chegar a uma conclusão útil, vire-se e comece a caminhar, você vai encontrar uma rua, chegando nela você poderá escolher entre três direções, esquerda, direita ou em frente. Tá, tudo bem se não souber que direção tomar repita todos os procedimentos.
Terça-feira, Janeiro 17, 2006
a flor

| Algum tempo havia passado desde a última vez que se viram. A idéia de se encontrarem novamente causou arrepios em Joãozinho, daqueles que pegam a gente de surpresa e quando você menos espera, passa por seu peito e deixa as pernas moles, como se o chão desaparecesse de repente. Antes de tomar seu rumo, escolheu a rosa mais bonita, tirou do bolso umas duas ou três notas amassadas, jogou-as no balcão e saiu correndo. Nuvens escuras encobriram o céu em menos de dez minutos, algumas gotas já caiam sobre sua cabeça. Ele ainda estava a algumas quadras da Igreja quando as gotas tornaram-se uma tempestade. Já na entrada da capela, seus cabelos estavam bagunçados e sua roupa pingava. Valeria a pena entrar e entregar a flor apenas por seu perfume, que apesar de algumas pétalas a menos era mais forte do que nunca. Gritos e risos eram abafados pelo som da água que escoava por uma calha lateral. Titubeou ao pisar no primeiro degrau, cogitou a idéia de sair correndo naquele instante, mas não, subiu os outros quatro degraus, olhou atentamente por um dos vidros da porta, sentiu mais uma vez o arrepio que foi do peito às pernas, abaixou-se, deu um beijo carinhoso na rosa, tirou cuidadosamente os espinhos e deixou-a em frente a porta principal. Não pode deixar de perceber que os risos por um instante pararam. Ao espiar pelo vidro, percebeu que ele vinha em direção a porta e ao abrí-la, tomando cuidado para não se molhar, pôde apenas ver os calcanhares de alguém dobrando a esquina, mas sua atenção logo voltou-se para o chão, quando percebeu que havia pisado em alguma coisa. |
Quinta-feira, Dezembro 29, 2005
Sobre um certo Joãozinho
Joãozinho é um desses garotos moderninhos que tem computador em casa e acesso a tudo que a tecnologia e a pseudo tecnologia têm a oferecer. Um dia esse pálido garotinho apaixonou-se. E não era por qualquer um não, era alguém especial, que ele gostava mesmo, era como se tivesse escolhido a dedo e olha que as ofertas eram muitas, mas Joãozinho é decidido e também tão frágil que não suportou o fora que levou. Ah, pobre Joãzinho, seu pequeno coraçãozinho doía, doía, apertadinho. Dos seus pequenos olhinhos cor de oliva, caiam pequenas gotinhas transparentes que derramavam-se sobre a camisa bordô que usava, fazendo formas no tecido molhado sobre seu peito. Ah seus suspiros podiam ser ouvidos ao longe, por quem quer que passasse ali naquele momento. Ele olhou para o céu, haviam algumas nuvens. Não conseguia parar de pensar em seu amorzinho, ele sabia que naquela noite ia custar a dormir, se dormisse, ia sonhar com isso a noite toda. Ah ele realmente é um garotinho sensível, ingênuo e eu pesso licença pra dizer que até certo ponto, imaturo. No minuto seguinte, Joãzinho pensava em apenas uma coisa, construir uma máquina do tempo, isso, uma maquininha que o fizesse voltar no tempo e concertar tudo. Claro! Como ele não tinha pensado nisso antes? Ah Joãzinho era esperto, ágil. Mas por onde começar? Que material usar? Depois de muito pensar e intercalar pensamentos, ora a máquina, ora seu amorzinho, Joãozinho foi para a frente do computador, fazer uma pesquisa no Google.
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